Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações. (Allan Kardec - E.S.E, XVII, 4)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Os mártires do Espiritismo



A respeito da questão dos milagres do Espiritismo, que nos tinha sido proposta e que foi tratada em nosso último número, também nos propuseram esta pergunta: “Os mártires selaram com o próprio sangue a verdade do Cristianismo. Onde estão os mártires do Espiritismo?”
Tendes, pois, muita pressa em ver os espíritas na fogueira e atirados às feras, o que leva a supor que boa vontade não vos faltaria se isto ainda pudesse acontecer. Quereis, a todo custo, promover o Espiritismo à categoria de uma religião! Notai que ele jamais teve essa pretensão; nunca se colocou como rival do Cristianismo, do qual declara ser filho; que combate seus mais cruéis inimigos: o ateísmo e o materialismo. Ainda uma vez, é uma filosofia que repousa sobre as bases fundamentais de toda religião e na moral do Cristo; se renegasse o Cristianismo, ele se desmentiria e se suicidaria. São seus inimigos que o apresentam como uma nova seita, que lhe deram sacerdotes e sumo-sacerdotes.
De tanto gritarem que é uma religião, as pessoas acabarão por crer.
É preciso ser uma religião para possuir seus mártires? A Ciência, as artes, o gênio, o trabalho e as ideias novas não tiveram, em todas as épocas, os seus mártires?
Não ajudam a fazer mártires os que apontam os espíritas como reprovados, como párias de quem se deve fugir ao contato? Os que sublevam contra eles a populaça ignorante a ponto de lhes tirar os meios de subsistência, esperando vencê-los pela fome, em falta de boas razões? Bela vitória se o conseguissem! Mas a semente está lançada e germina em toda parte; se for abafada num ponto, crescerá em cem outros. Tentai, pois, ceifar a terra inteira!
Deixemos, porém, que falem os Espíritos encarregados de responder à questão.
I
Pedistes milagres e hoje pedis mártires! Já existem os mártires do Espiritismo: entrai nas casas e os vereis. Exigis perseguidos: abri, pois, o coração desses fervorosos adeptos da ideia nova, que lutam contra os preconceitos, com o mundo, muitas vezes até com a família! Como seus corações sangram e se enchem quando seus braços se estendem para abraçar um pai, uma mãe, um irmão ou uma esposa e não recebem, como paga de suas carícias e de seus transportes, senão sarcasmos, sorrisos de desdém e desprezo! Os mártires do Espiritismo são os que, a cada passo, ouvem estas palavras insultuosas: louco, insensato, visionário!... E durante muito tempo terão de suportar essas afrontas da incredulidade e outros sofrimentos ainda mais amargos; mas a sua recompensa será bela, porque se o Cristo mandou preparar um lugar soberbo para os mártires do Cristianismo, o que prepara aos mártires do Espiritismo será ainda mais brilhante. Mártires do Cristianismo na infância, marchavam para o suplício com coragem e resignação, porque não contavam sofrer senão dias, horas e segundos do martírio, aspirando depois a morte como única barreira a transpor para viver a vida celeste. Os mártires do Espiritismo não devem buscar nem desejar a morte; devem sofrer tanto tempo quanto praza a Deus deixá-los na Terra, e não ousam julgar-se dignos dos puros gozos celestes logo que deixam a vida.
Oram e esperam, murmurando palavras de paz, de amor e de perdão aos que os torturam, enquanto aguardam novas encarnações nas quais poderão resgatar suas faltas passadas.
O Espiritismo se elevará como um templo soberbo. No começo os degraus serão difíceis de subir; mas, transpostos os primeiros degraus, os Espíritos bons ajudarão a vencer os outros até um lugar plano e reto que conduz a Deus.
Ide, ide, filhos, pregar o Espiritismo! Pedem mártires: vós sois os primeiros que o Senhor marcou, pois sois apontados a dedo e tratados como loucos e insensatos, por causa da verdade!
Mas, eu vo-lo digo, em breve vai chegar a hora da luz; então, não mais haverá perseguidores nem perseguidos: sereis todos irmãos e o mesmo banquete reunirá opressores e oprimidos!

Santo Agostinho – Revista Espírita – abril / 1862

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