Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações. (Allan Kardec - E.S.E, XVII, 4)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O dedo de Deus



Nós vos demos a entrever a aurora da regeneração humana. Nisto, como em toda a marcha da Humanidade através das idades, deveis ver o dedo de Deus.

Já vo-lo dissemos muitas vezes: Tudo que acontece aqui na Terra, como tudo quanto se passa no Universo inteiro, está submetido a uma lei geral: a do progresso.
Inclinai-vos ante ela todos vós que, orgulhosos e soberbos, pretendeis colocar-vos acima dos desígnios do Todo-Poderoso! Buscai por toda parte a causa de vossas desgraças, como de vossos prazeres, e aí reconhecereis sempre o dedo de Deus.

Mas, direis, então o dedo de Deus é o fatalismo! Ah! guardai-vos de confundir essa palavra ímpia com as leis que a Providência vos impôs, essa mesma Providência que vos deve ter deixado o livre-arbítrio, para, ao mesmo tempo, vos deixar o mérito de vossos atos, mas que lhes tempera o rigor por essa voz, tantas vezes desconhecida, que vos adverte do perigo a que vos expondes.
O fatalismo é a negação do dever, porquanto, sendo nossa sorte fixada previamente, não nos cabe mudá-la.

Em que se tornaria o mundo com essa horrível teoria, que abandonaria o homem às pérfidas sugestões das piores paixões? Onde estaria o objetivo da criação? Onde a razão de ser da ordem admirável que impera no Universo?

Ao contrário, o dedo de Deus é a punição sempre suspensa sobre a cabeça do culpado; é o remorso que corrói o coração, censurando-lhe os crimes a cada instante do dia; é o horrendo pesadelo que o tortura durante longas noites insones; é esse rastro sangrento que o segue em todos os lugares, como para reproduzir aos seus olhos, incessantemente, a imagem de sua malvadez; é a febre que atormenta o egoísta; são as perpétuas angústias do mau rico, que vê em todos que dele se aproximam espoliadores dispostos a lhe roubar um bem mal adquirido; é a dor que experimenta em sua última hora por não poder levar seus inúteis tesouros!

O dedo de Deus é a paz do coração reservada ao justo; é o suave perfume que vos repleta a alma após uma boa ação; é esse doce prazer que se experimenta sempre ao fazer o bem; é a bênção do pobre que se assiste; é o doce olhar de uma criança cujas lágrimas enxugamos; é a prece fervorosa de uma pobre mãe, a quem se proporcionou o trabalho que a deve arrancar da miséria; é, numa palavra, o contentamento consigo mesmo.

O dedo de Deus, enfim, é a justiça grave e austera, temperada pela misericórdia! O dedo de Deus é a esperança, que não abandona o homem em seus mais cruéis sofrimentos, que o consola sempre e deixa entrever ao mais criminoso, a quem o arrependimento tocou, um recanto da morada celeste, do qual se julgava rejeitado para sempre!

                                                         Um Espírito familiar – Revista Espírita – setembro/1863

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